1 de jun. de 2009

INSONE*

faz dias
que me sinto
insone
faz dias
que me vejo
sem vontade
de sair de casa
as ruas
não me trazem
nada
faz dias
que minhas noites
são dias
de sol
fico insone
debaixo
dos lençóis
olhando seu sono
faz dias
que não quero
nada
quero ficar
sozinho
com meu abajur
e minha poltrona
e minhas canetas
insone a noite inteira

DIA SEGUINTE*

nós perdemos
mais um dia
ausentes de nós
preferimos
o silêncio
depois
o dia seguinte
ainda
fica
em nós
o silêncio
e dois dias
se foram
dias de nós
sem culpas
nem desculpas
ausentes de nós
ausentes de tudo
mergulhados
nas nossas frustrações
nós perdemos
dois dias
em silêncio
e o dia seguinte
ainda em nós
a ausência de nós
e o silêncio

JEITO TRISTONHO*

não me falta
nada
tenho amor
amor demais
algumas vezes
tenho dor
dor demais
esse jeito tristonho
já faz parte de mim
e nem eu
sei por quê
minha vida
ainda saudável
meus amores
ainda vivos
meus irmãos
queridos
minha fé
meu modo de ver
não me falta nada
esse meu jeito
tristonho
é meu
talvez por ver o tempo
passar rápido demais
talvez por saber
que um dia o amanhã não chegará

VOZ DE VELUDO*

gosto
de ficar
escutando
a voz
de veludo do vento
gosto
de escutar
sobre as paixões
e seus tormentos
gosto de ouvir
a voz do vento
que sopra
intenso em mim
somos assim
irrepreensíveis
gosto
de abrir a janela
para ouvir
o vento cantar
gosto
de me sentir
vento
de imaginar
que tenho voz de veludo
e que como o vento
possa
chegar em todo lugar

OLHOS PENETRANTES*

ela era linda
inevitavelmente linda
olhos penetrantes
pele
e tudo
o que eu mais queria
ela era sonho
radiante
de uma noite
que se deseja que não se acabe
ela era
o que melhor
havia acontecido
o doce sorriso
os olhos
penetrantes
envolvendo
linda
irresistivelmente linda
ela era a certeza
e a razão
o sonho
e a esperança
eu
mais um
bobo
querendo chamar sua atenção

MEU INFERNO*

meu inferno
é meu
não quero
ninguém comigo
quero ficar só
no meu inferno
quero
ficar com meus pecados
e minha falta
de consciência
não quero
ninguém
para dividir minhas dores
para carregar
minha cruz
cada um que carregue
a sua
cada um que viva
em seu próprio inferno
meu inferno
é só meu
não quero ninguém
culpando-me
não quero ninguém
entre mim
e minhas culpas
e meu inferno

IRRITAÇÃO*

ando
irritado
cansado
ando
nervoso
esse ar
essa falta de ar
essa gritaria
no meu ouvido
ando
cheio
dessas insanidades
cheio
desses loucos
que gritam
que falam em nome
de um deus
que nem conhecem
essa
irritação
vai acabando comigo
vai me deixando
vulnerável
ainda mais
a tudo o que irrita
esse ar poluído
esse barulho

INEXPRESSIVAS*

você vem
falando
à toa
palavras
sempre
inexpressivas
você
fala pouco
diz sempre
bobagens
palavras sem impacto
fala por falar
o que nem sabe
dizer
palavras inexpressivas
para um coração
que já não pulsa mais
não somos iguais
nos nossos medos
e no jeito
de falar
você vem
falando à toa
cheio de palavras
inexpressivas
palavras
que não dizem nada

FLUIDEZ*

quero
minha vida
seguindo
sem desvio
o seu caminho
quero a fluidez
de um rio
que deságua no mar
quero minha vida
seguindo
seu caminho
sem atalhos
sem surpresas
quero
ver o sol
quando houver sol
sem reclamar
das nuvens
que o cobrem
quero
dias de chuva
para que assim
possa lavar minha alma
seguir a fluidez
de um rio
que deságua no mar
quero minha vida desse jeito

REPUGNÂNCIA*

não quero
amor banal
não quero
nada que me
dê repugnância
que me cause
dor
e arrependimento
quero
amor de verdade
amor
que alimenta
amor que não condena
não quero
calar o vento
não quero suspirar
por um falso amor
falsos amores
que causam nojo
repugnância
não quero
nada que seja assim
não quero nada
que me faça querer parar
no meio do caminho
quero amor de verdade
que não seja banal