30 de jul. de 2009

SERÁ QUE FOI*

será que foi
a última das cartas
na manga
será que foi
apenas sonho
ou pesadelo
as noites
comendo
seus neurônios
a dor de cabeça
atormentado
seus ouvidos
será que foi
a emoção
ou quem estava
gritando
era apenas
a razão
será que foi
conversa
para ver se chegava
o morfeu
deus do sono
será que foi
apelo ou apenas
desespero para que a noite
acabasse logo e
levasse o desespero

SOSSEGA*

deixa
o coração
como está
sossega
não adianta
ter pressa
nem é preciso
ajoelhar
sossega
o que é seu
está traçado
nas linhas
que deus escreveu
nada muda
o caminho
não existe esse papo
de livre arbítrio
fica calmo
e segue em frente
tudo no fim
dá certo
sossega
deus já traçou seu destino
já escolheu seu caminho
não adianta ter pressa
sossega
vai devagar
vivendo sua vida

CRIANÇA BOBA*

criança boba
acredita
em papai noel
ainda não cresceu
criança boba
acha que vai ganhar
presente
não entende
que seu pai morreu
ainda acredita
em Deus
e mãe coitadinha
com lata de roupa na cabeça
carrega dentro do ventre um filho
que não é seu
é do mundo
criança boba
que não quer saber
da verdade
papai noel
não existe
nem presente de natal
apenas sua mãezinha
que agora está
sozinha na sujeira
do quintal
criança boba
ainda acredita em Deus

CORAÇÃO "XONADO"*

coração xonado
fica cego de paixão
não pensa
nem sente
quer apenas
bater
descompassado
coração
xonado
não tem dono
mas vive cercado
de dia
quer a morena
de noite
quer a pequena
e acaba sozinho
na janela do mundo
sonhando ter no futuro
coração como
o seu
apaixonado
coração xonado
deixa “o cabra” cego
não pensa
não sente
e perde a razão
não sabe se ama a loira
a ruiva ou a morena

PÉS PELAS MÃOS*

troquei os pés
pelas mãos
corri
feito louco
numa ladeira
tropecei
na montanha
na minha frente
troquei
o certo
pelo que queria
não era duvidoso
eu sabia
quis me testar
tinha sede
de conhecer
e conheci a dor
troquei
os pés pelas mãos
e caí
machuquei
entendi
que as mãos seguram
e os pés sustentam
corri
tudo de novo e agora
pulei a montanha
na minha frente

SEU NOME*

seu nome
não sei
não me lembro
poderia
ser qualquer nome
Antonio
João ou Francisco
o que importa
o nome
o sangue é o mesmo
seu nome
não me lembro mais
poderia ser
Ana
Maria
ou Cristina
que me importa
o nome
o que importa é o
do Antonio, João
ou José que somando
ao sangue da Ana, Maria
ou Cristina
fez de mim
poeta de sangue
de muitos Joãos, de muitos
Antonios, de tantas Marias, Anas
ou Cristinas

TINHA MOTIVOS*

tinha
motivos
para ser
um delinquente
decidi
ser poeta
escritor
para escrever
um mundo perfeito
diferente do que
meu pai
me deixou
a beira da miséria
tomava água com açúcar
para dormir
minha mãe
era mais criança
do que eu
tinha motivos
para ter ódio
dentro de mim
reneguei
esse meu destino
de moleque
de vagabundo
virei poeta
para esquecer toda dor
que desejaram para mim

NUNCA MAIS ESQUECER*

nunca mais
esquecer
quem sou
já
esqueci
quem eu era
nasci
de jeito
depois mudei
e fui mudando
vou morrer
outro
bem diferente
não sei
se melhor
ou pior
mas diferente
daquele que nasci
nunca mais
esquecer
os tapas que me deram
e as broncas de minha mãe
ah minha mãe
que hoje como eu
chora o tempo perdido
nunca mais esquecer
o que já foi esquecido
nunca mais

PRIMEIRA IMPRESSÃO*

quando a vida
se fez
para mim
muito antes
de saber
o que era vida
a primeira impressão
foi que eu
estava num grande
parque de diversões
tudo era possível
sonhar era também
permitido
aos poucos
a primeira impressão
foi se apagando
as pessoas do
grande parque
foram sumindo
os brinquedos
viraram armas
quando a vida
se fez de verdade
em meus olhos
queria voltar depressa
a ser criança
para ter sobre a vida
uma segunda impressão

IMPRESSIONANTE*

impressionante
como as
palavras
acontecem
em mim
impressionante
como em
mim
oscila a paz
há momentos
de infernos
e momentos
de serena brisa
impressionante
como em mim
há tanto para doar
e mesmo assim
suportar
o peso
dessas correntes
impressionante
como estou envelhecendo
aos poucos
caminhando para o fim
de minha existência
deixo apenas
meus livros
e minhas palavras