6 de nov. de 2014

NÃO EXISTO

quem sou eu
sou sem nome
sem passado
sem história
sou o esquecido
o incomodo
a ausência
sou a solidão
a tristeza
os dias
de saudade
quem sou eu
flor que não abre
que morre
esquecida
em solo
ressecado pelo sol
sou fadiga
o cansaço
a solidão que incomoda
sou o álcool
a droga
o pior que há
sou o desamor
a descrença
o pesadelo em noite
de lua cheia
quem sou eu
alguém que você não vê
alguém que não existe
pra você

Foto by Lee Jeffries


DE ONDE VEM

de onde
vem a dor
aquela dor
que rasga
o corpo
que dilacera
que faz lágrima cair
de onde
vem e porque
vem assim
o sofrimento
talvez
venha no vento
montado
nas costas
de um cavalo alado
vem pra marcar
pra deixar
em frangalhos
as almas
que vagam por ai
por que a dor
dói assim
nas noites mais frias
e mais escuras
nos becos
e nas ruas
talvez
venha de todos
os maus amores
das paixões
das desilusões
e de todos os sonhos
desfeitos

Foto by Lee Jeffries


TEM GENTE

tem
quem sofra
calado
quem não comente
a dor que sente
e sente só
suas dores
que castigam
a alma
tem gente
que abraça
a solidão
e veste
de luto sua alma
e ninguém vê
e ninguém repara
tem gente
que anda por ai
à toa
buscando nada
por tantas ruas
sujas
empoeiradas
tem gente
que a gente não vê
faz que não vê
que não entende
tem gente
que morre
como indigente
sem casa
sem ninguém
só a terra
e os dias que ficaram

Foto by

Lee Jeffries



4 de nov. de 2014

LARGADO

deixaram-me
no passado
deixaram
minhas roupas
minha história
meus desejos
minhas vontades
deixaram-me
sem querer saber
como me sentia
se sentia
o que pensava
o que queria
eu ainda sinto
velho
mais ainda sinto
sinto
pelos dias que se foram
sinto
pelos filhos
pelos amigos
pelo amor
que perdi
deixaram-me
num canto
como objeto velho
e sem uso
estou velho
e ainda
corre sangue
em minhas artérias
e já não choro mais
pelos dias
que virão
todos já fazem
parte do que jamais
viverei
agora
esquecido
largado
abandonado

Foto by

Lee Jeffries


OLHOS

olhos
pra que
pra ver tanta maldade
pra ver um mundo feio
desumano
olhos
pra que
tenho na memória
tudo o que amo
as pessoas
que amo
tenho na memória
o brilho
do sol
a cor da lua
olhos
pra que
para ver
pessoas que amo
indo embora
e me deixando
sozinho
esquecido
não quero ver
já não vejo
tenho tudo que amo
guardado
em mim
e um dia
haverá meu fim
e o fim de tudo o que vivi
e quem sabe
assim
meus olhos
enfim voltem a enxergar

Foto by

Lee Jeffries

SOL

a vida
me fez assim
deturpou meus sonhos
distorceu minhas verdades
e fez de mim
mais um
de tantos pedaços
a vida
me moldou
como bem quis
sem me perguntar
sem me dar chance
de escolher
me empurrou
ladeira
abaixo
e eu rolei
esqueceram de mim
esqueci de mim
sem passado
sem identidade
mais um padaço
entre tantos
esquecidos por ai
a vida
fez o que sou
sou o sol
que jamais se põe

Foto by

Lee Jeffries

VIDA

não sei
o que sentir
tudo dói
dentro de mim
não vejo
alegria
desconheço
a felicidade
desejo
a morte
e o fim dessa
agonia
não sei
de nada
não conheço
a vida
sempre
andei por ai
invisível
aos olhares
alheios
pés descalços
olhar perdido
implorando
por nada
que não seja de verdade
há tanta dor
em mim
que viver
já não me encanta mais...

Foto by

Lee Jeffries

3 de nov. de 2014

AGORA

agora
estou aqui
sem acreditar
em quase nada
sem nenhuma paixão
sem nenhuma crença
descrente
no amor
descrente
nos planos que fiz
agora
fico
andando pela casa vazia
recolhendo
meus pedaços
tentando
ainda
me refazer
do estrago
agora
sigo
por um caminho
sem destino
sem saber
o que fazer
e o que pedir
andando
de um lado
para o outro
nesta casa imensa
agora
fico aqui
lembrando
de tudo
de como pude
ser tão volúvel
e ter me permitido
tanto
deixar
que o mal
tomasse conta de mim
agora
fico assim
cada segundo mais velho
apodrecendo

SEM AMOR

sem amor
não existe paixão
não existe poesia
nem razão
nem calor
só frio
só solidão
sem amor
não há amanhã
não há por do sol
nem lua
nem fé
sem amor
não somos mais
do que sombras
ecos
vazios
sem amor
não existimos
e ainda assim
quantos
fingem
que amam
um amor que desconhecem
um amor
que mata
que entristece
sem amor
só há vazio
só há corações
e almas
e mais nada
sem amor

BURACO

seu eu pudesse
me escondia
de mim
do mundo
do tempo
seu eu pudesse
eu virava
bicho do mato
sem passado
sem presente
e sem medo
do futuro
viveria num buraco
bebendo
água da chuva
deixando
que lua
cobrisse
meu corpo
nas noites frias
se eu pudesse
esquecer
quem fui
meu presente
seria melhor
então vivo
olhando minhas cicatrizes
e o tempo
que passou
se eu pudesse
viraria bicho do mato
viveria num buraco
sem pensar
sem me preocupar com nada