16 de dez. de 2014

RASCUNHOS

rascunhei
num papel
amassado
o amor que tanto sonhei
rascunhei
com palavras
e versos
o amor mais sincero
que a vida me deu
rascunhei minhas verdades
meias mentiras
um pouco de mim
rascunhei
sorrisos
e abraços
e beijos que nunca dei
num pedaço
de papel amassado
amarelado
pelo tempo
que não vivi
rascunhei
o corpo
cheio de cicatrizes
e marcas
e manchas
machucados
feridas expostas
rascunhei
tudo aquilo
que um dia
pensei que seria
e não foi
e o papel o vento levou
e meus rascunhos
perdidos
com o vento
que o vento levou

VAZIO


um vazio
em tudo
em todos
nas ruas
nas avenidas
nos sorrisos perdidos
na pressa
na vida
na poesia

um vazio
de Deus
vazio na fé
na alma
escancarada

um vazio
perdido
nas crianças
nas mulheres que amam
e no amor
que se foi
há tempos

um vazio
nas estações
nos dias
do ano
nos abraços
nas horas perdidas

um vazio
em tudo
em todos
nas rosas
nas roseiras
nos espinhos

5 de dez. de 2014

LIVRE

enfim
esvaziei
meu peito
sinto
o coração
vazio
desintoxicado
livre
enfim
sinto-me como antes
retomando
meu caminho
depois de tantos
anos
perdidos
enfim
me acho
liberto
liberto de mim
das minhas teorias
sem sentido
enfim
volto
a voar
e viver meus dias
como sempre
livre
do veneno
cheio do meu amor
de sempre

CAMA VAZIA

quero
meus sonhos
acordados
a cinco da manhã
quero
encontrar
tua cama vazia
e saber
que teu corpo
anda
gelado
não quero mais
sonhar
dormindo
sonhos
assim
não valem nada
quero poesias
cantadas
em bocas vestidas de
sorrisos
quero
verdades
quero quem goste
de poesia
de romance
do gosto
doce da paixão
quero de volta
meus sonhos
quero sonhar
acordado
encontrar tua cama vazia
e teu coração
despedaçado

MINHAS TARDES

quero
de volta
minhas tardes
de paz
onde andava
por ai
sem nenhuma cruz
sem nenhuma culpa
livros
relidos
sem memórias
quero
de volta
meus dias
iguais
minhas rotinas
meu amor
que perdi
antes
eu corria
por alamedas
imaginárias
quero de voltas
minhas poesias em guardanapos
em papéis
de acasos
quero andar por ai
eu
em companhia
de mim
eu e meus pensamentos
e minhas alegrias
e minhas tantas loucuras

NÃO MAIS

teu batom
vermelho
teus seios
teu jeito
de mulher
à toa
tuas palavras xulas
tua mente vazia
teu coração
que borbulha
tuas mãos inquietas
tuas pernas
tuas coxas
virilha
teu sexo
tu és
ilusão
pecado
minha derrota
meu ponto fraco
agora eu sei
não quero mais
me perder
onde eu me acho
não quero mais
andar
por ai descalço
as pedras do teu caminho
não vão mais
me machucar
tua boca
maldita
teu coração estupido
vazio

GUERRA

voltei
da guerra
sem alma
sem coração
sem sentimentos
voltei
com o corpo vazio
de coragem
sem malas
sem bagagens
apenas
com minha cruz
e minhas histórias
voltei da guerra
e só agora
eu sei
todo mal
que a guerra me fez
quanto perdi
e como me perdi
em meio
ao meu caos
me vendo morto
a todo instante
voltei da guerra
sem alma
sem terra
com braços abertos
a minha espera
voltei ferido
vivo
despedaçado
corpo vazio
sem alma
sem amor
sem sentimentos

FLORES

as flores
desse jardim
já não mais me atraem
vejo apenas
seus espinhos
não sinto mais
o doce
perfume
que me encantava
as flores
murcharam
e já não mais
encanto
que me faça querer
viajar
em sonhos
que não são meus
já não mais
nada que me iluda
nada mais
que eu não conheça
as flores
desse meu jardim
morreram
secaram
ficaram apenas
suas pétalas
jogadas
e seus espinhos
em minhas mãos calejadas
não há mais perfume
nem encanto
que me seduza
e que mate
o que já morreu

DEMÔNIO

fui
ao inferno
voltei sem asas
sem inspiração
sem amor
deixei
o melhor de mim

com meu demônio
para que ele não
se esquecesse de mim
e eu
me lembrasse
sempre dele
fui
ao inferno
do amor
conhecer
seu lado escuro
seu lado podre
seu lado mal
e conheci
e bebi
suas águas
e chorei todas as lágrimas
abracei
meu demônio
e confessei
a ele
meus pecados
e deixei
lá no inferno
meus monstros
meus pássaros
meus pesadelos
e voltei
para minhas nuvens
para minha terra
de certeza
voltei com a certeza
que jamais
iria esquecer
o inferno
e o inferno jamais
esqueceria de mim

MERGULHAR

era preciso
mergulhar
no meu abismo
particular
eu precisava
admitir
que havia
ainda veneno
em mim
eu precisava
entender
minha morte
entender
que perdi minha sorte
e que briquei
demais
com a vida
que vivia
era preciso
entender
a dimensão do meu erro
entender minha culpa
pedir
desculpas
e sair de mim
daquele meu estado
inconsciente
e admitir
que o erro foi meu
que a culpa foi minha
que o abismo
havia engolido meu eu
perdi todo sangue
o que corria em mim
era só
veneno