28 de jun. de 2017

SEM PALAVRAS

aquele
que fui
há tempos
deixei de ser

fui
morrendo
um pouco
a cada dia

foram
me matando

aquele
que fui
há tempos
deixei de ser

hoje mais
calado
quase sem palavras

hoje
mais inerte
reflexivo

deixei
de amar
o amor que sentia

minha vitalidade se dissipou
com o tempo
olho
a vida da minha janela
e não ouso mais
viver

apenas
me lembro de quem
já fui
um dia

14 de jun. de 2017

NÃO SINTO MAIS NADA

não
te escrevo mais
não
falo mais
de sentimentos
de amores
das paixões todas
deste meu eu

escrevo
agora
sobre as pedras
imóveis

sobre os cacos
jogados
no lixo

e no lixo
ali jogado
no lixo

não escrevo mais
não falo
mais destas dores
do sentir
não quero sentir mais nada

escreverei
sobre as sombras
de um dia sem sol
e deixarei
ali
sepultado a beira do caminho
tudo aquilo
que um dia senti

AMO-TE ASSIM

nem sei
quem tu és
e te amo

amo-te
sem saber
teu nome
sem conhecer
teu riso

que me importa

amo-te
assim
despretensiosamente

apenas
por te ver
passar todos os dias
pelo mesmo
caminho

ainda que não me vejas
refletido
em teus olhos

estou ali
na mesma alameda
de sempre
e te amo
sem saber como
e nem porque

quando souber
deixará de ser o amor que é

NUMA GAVETA QUALQUER


tempos
deixei
ser
quem fui

há tempos
perdi
o sorriso
em qualquer lugar

cultivei
as cicatrizes
em mim
e dores
já não doem mais

deixei
rastros
para trás
e trago comigo
meu passado

para que eu me lembre
quem nunca
fui

há tempos
me esqueci
numa gaveta qualquer

NADA SEI

não
sei
em que céu
habitas

se estrela
vento
ou sonho
de noites sem fim

não sei
se é presságio
se é tormenta
ou temporal

se é chuva
sol
estrada sem fim

não sei
se és pegada
caça
ou caçadora

deusa
ou demônio

não sei
nada
se és escuro
luz
ou névoa que não passa

DESENHEI VOCÊ

desenhei
você
em uma tela
usada

usei
tintas que eu
tinha em casa

usei
as mãos
para dedilhar
teu corpo
teu rosto
cada poro teu

desenhei
você
com giz de cera
numa rua
sem movimento


eu te via
ali
jogada
nos meus sonhos
tão reais

desenhei
você
para que a chuva
depois
apagasse
qualquer marca sua

e você
escorresse
e desaparece

TE VIVEREI

beberei
ainda
este teu veneno

mesmo
que eu morra
na hora
seguinte

ainda
sentirei
na boca
o suor da tua pele

ainda
que eu esgasgue

serei
teu
nas mentiras
dos teus versos
mal declamados

ainda
que na manhã
seguinte
não reste mais nada
de teu abraço

te viverei
ainda
que depois de tudo
não reste nada


NOITE DE INSÔNIA

sonhei
você
numa noite
de insônia

não eras
mais
a mesma

estava
sem mãos
sem face
sem espinhos

sonhei
você
nem destes meus instantes
de insanidade

não eras
a mesma
e nem eu
como antes

eras um rabisco
num papel amassado
e eu cinza
deste mesmo papel queimado

espalhado
pelo vento
de uma noite
de insônia
em que sonhei
você

PASSARÁS

ainda
passarás
por mim
e eu
estarei
ali
inerte
disfarçando
tudo aquilo
que já não sinto mais

ainda
passarás
derrubando
pelo caminho
farpas
e espinhos
e o veneno ácido
do teu perfume

eu
estarei ali
entre
a multidão
de desapercebidos
indiferente
a dor


não saberei
mais nada de ti
e tu
saberás
ainda menos de mim




SERÁS


serás
sempre
meu vício
minha insensatez

serás
sempre
minha volta
meu atalho

o rio
que me leva
ao mar

serás
sempre
a razão
e a revolta

a janela
sempre
aberta
e a porta
encostada

serás
sempre
amante
amada

minha serenidade
e minha loucura

serás
ainda que não reste mais
nada de mim