2 de jan. de 2019

ILUSÃO


foi
mais uma ilusão

aquela fagulha
capaz de vencer a realidade

era apenas
fotografia
de um corpo
que se dissolvia
talvez pior do que eu
talvez mais perdida

para que
então
este prazer de instantes
para depois
voltar
cabeça baixa
para a mesma realidade
que me devora

foi
mais uma mentira
entre tantas
que invento
para me salvar de mim

FICANDO POR AI


e ficar
por ai
o dia todo
carregando uma mochila vazia

e ficar
vencendo as horas
matando
qualquer expectativa
que não existe

plantar
paciência e esperar
que de algum jeito ela brote

e esperar
que o sol se ponha
e a noite
se encerre numa fotografia
muda

e ficar
morrendo
sem ter feito nada

LUGAR QUALQUER


não quero
me sentar num lugar
qualquer
e ficar pensando
no que vou escrever

quero simplesmente
escrever
qualquer coisa

qualquer sentimento
que grite a alma
qualquer dor aà toa que me doa
qualquer mentira
que minha boca profane

não quero pensar
quero apenas
deixar fluir

deixar
que tudo vaze
pelos poros
e ainda que doa
o nada

sentir-me-ei melhor

1 de jan. de 2019

MARCAS


teu batom
na minha boca

teu sabor
em minha língua

teu perfume
em meus poros

tua imagem
em minha memória

tuas unhas
em minha pele

tua sede
minhas vontade
vivas

teus momentos
incertezas
tuas confusões
e teus medos

nossos abraços
teu abraço
calor
tua marca de batom
no espelho do quarto

lembranças
do que seremos
do dia
que deixaremos de ser

MAIS ABRAÇOS


que possamos
morrer
num abraço

que possamos
nos amor
nos tornarmos um

que possamos
ficar em paz
no silêncio de nós

que nossos laços
virem nós
e que possamos
deixar
de lado
nossos pecados

que nossas bocas
não se cansem
de beijar
que nossos corpos
não
se cansem de amar

que as horas
demorem
a passar
e que os dias sejam longos

que possamos
viver
a paz do nosso amor
em meio
a confusão
do que é amar

mais abraços
eternos

NOSSOS SONHOS


que nos
sonhos
a gente possa se encontrar
e quem sabe
sentar e conversa

quem sabe
nos sonhos
a gente
se olhe como nunca
se olhou
e se toque como
nunca se tocou

quem sabe
a gente possa deitar
sobre a grama verde
e fazer dela nossa cama
de ilusões

quem sabe
nossas bocas
selem beijos
e promessas que jamais
serão cumpridas

quem sabe
a gente não desperte
e morra
no mesmo sonho
do mesmo amor
que acordados negamos sentir

quem sabe
depois de tudo
quando
depois que nossas mentiras
forem cuspidas para fora
de nossa alma
a gente
posso enfim viver
nossos sonhos

DEIXE-ME


deixe-me
com meus sonhos
com meus desejos
com meu silêncio
com meus papéis em branco
com minhas canetas sem tinta

deixe-me
com os livros que ainda não li
com os amores
que não pude amar
com as noites
sem lua
com os corpos sem luz

deixe-me
com meus vinis enferrujados
com meus cds
com meus fones de ouvido
com minha boca calada

deixe-me
com minhas calças surradas
com meus tênis sujos
com minha escada sem degraus

deixe-me
cercado
livre
deixe-me
respirar meus alentos
meus alívios
minha fumaça tôxica
palavras desconexas

deixe-me

CAÇO


te caço
em minhas noites
em meus sonhos
em meus dias
pelas ruas por onde passo

caço
teu rosto
teu jeito
em tantos outros jeitos
em sorrisos
que não vejo
em corpos
que não toco

te caço
nas migalhas
dos pombos
no perfume
que fica
quando passam por mim
nos passos
que passam

te caço
nas poesias
que escrevo
nos gritos
abafados
carros que passam

te caço
para te arrancar
e te tirar
de onde coloquei

MAIS POESIA


mais noites
mais madrugadas
mais olhares
mais abraços
mais calor
frio
mais sementes
mais sol
água
mais mar
mais amor
mais sabor
sal
açúcar
mais som
mais riso
mais trepadas
mais por acaso
mais coincidências
mais horas perdidas
mais roupas jogadas
mais camas desfeitas
mais copos sujos
mais saliva
mais afeto
mais apego
mais dias juntos
mais café
mais poesia
mais poesia
mais poesia
muito mais poesia

BOCAS AMARGAS


cinzas
voando
por ai

caminhos
que jamais
serão percorridos

olhares
que nunca
irão
se encontrar

bocas amargas
secas
ressecadas
sem palavras
sem saliva
beijos

ventos
calados
sofreguidão
solidão
sem horizontes
sem noites
sem braços

cinzas
voando por ai
até que tudo
sem desfaça
e de novo
virem cinzas