28 de jul. de 2009

LAVAR MINHA CRUZ

Vou
Lavar
Minha cruz
Tirar a poeira
E o barro
Vou colocar
Madeira nova
Lixar
E pintar
Vou reformar
A cruz
Que carrego
Deixá-la
Mais leve
Mais transparente
Vou lavar
Minha cruz
Exorcizar
Meus pecados
Vou
Reformar
A cruz
Que é minha
Deixá-la
Mais florida
Para que assim
Fica mais claro
Meu caminho

PRA SE ALIMENTAR

Pra se alimentar
Queria
Apenas a luz
Branca
Queria apenas
A energia
Que circula
Pra se alimentar
Jogue
Para dentro
Apenas
Sentimentos
Bons
Pra se alimentar
Respire
O ar
Das manhãs
Frias
Durma com as janelas
Abertas
E o corpo nu
Recarrega-se
De luz
Pra se alimentar
Queria apenas
O bem
E um pouco
De mal também

PRA SE ACOSTUMAR

Pra se acostumar
Com o pior
Do mundo
Devolva
Ao mundo
Um sorriso
Pra se acostumar
Com tudo
Que é cinza
Desenhe
Um arco-íris
Na janela
Para enganar
A tristeza
E mandar
Solidão embora
Pra se acostumar
Com os corações
Vazios
Que tentam roubar
Os potes de felicidade
Tranque a felicidade
Dentro do coração
Para que os olhos
Se enganem
E os corações infelizes
Se afastem
Sorria pra se acostumar

DESATINOS

Você
E seus desatinos
Nem parece
Em sã consciência
Viaja
Delira passeia
Como se tudo
Fosse
A coisa mais normal
Você
E suas conclusões
Antecipadas
Do futuro
Seus desatinos
E suas loucuras
Rasgadas
Suas conclusões
Tão certas
E suas noites sem paz
Você
E teu jeito de mulher
Menina
De menina moleca
Seus desatinos
Enlouquecem
Suas fugas alucinam
Seus dias
E suas noites

DESAPEGO MEU

Não me apego
A nada
Que eu não possa
Largar depois
Não me apego
A ninguém
Que depois
Me faça sofrer
Todo
Alguém
Faz alguém sofrer
Não me apego
Mais
A sorrisos
Nem a confissões
Isso é
Desapego meu
Já não me embaraço
Com sentimentos
De acaso
Nem acredito
Em contos
Da carochinha
Não quero nada
Que não seja meu
Isso é desapego
De quem já amou
E sofreu

CANTO DE SEREIA

A sereia
Cantou
E me prendeu
Me enfeitiçou
Eu estava
Em terra firme
Estava eu
Na beira do mar
A sereia
Cantou
A lua estava cheia
A noite
Estava clara
Naquela quanto
Da praia
Sereia cantava
Era um canto bonito
Tinha uma leve
Tristeza
Mas não era
Triste
Seria me encantou
Com seu canto de dor
Era um canto bonito
Me fez parar
E sonhar acordado
Procurei a sereia
Encontrei a lua

ORIXÁS

Para onde
Foram
Os meus guias
Os meus orixás
Será
Que me abandonaram também
Onde está
Obaluaiê
Onde está
Oxossi
Iansã
Onde está
Ogum
Será que até Xangô
Me abandonou
Para onde
Foi
O meu cigano
Oxumaré
Mamãe Oxum
A velha Naná
Minha mãe Iemanjá
Para onde foram
Meus orixás
Meus guias de luz
Os mestres do meu caminho
Será que até Oxalá
Me abandonou

SELVA URBANA

Deixei
De ser caçador
Virei
Caça
Nessa
Imensa selva urbana
Ando
Desarmado
Ando com medo
Cismado
Olhando
Para os lados
Desconfiado
Essa selva
Urbana
Me engole
São placas demais
Carros
E avenidas
Ruas que se cruzem
Pessoas que se trombam
Se esbarram
Essa selva urbana
Faz de todos
Caças
E caçadores
Ladrões, bandidos
E as vítimas

TÃO SINGULAR

Tua beleza
É tão singular
Que nada
Existe
Perto de ti
Beleza
Estúpida
Que deixa
O mundo sem graça
Que deixa
O mundo
Parado
Tua beleza
É tão singular
Que até
A mais bela
Das rosas
Se curva
Em reverência
Tua beleza
Fascina
Vicia
Sacia
Da fome
Vontade de quero mais
Tua beleza
Estúpida
Faz de nos, reles mortais

REOCUPANDO O CORAÇÃO

Coração
Não pode ficar
No vazio
No abandono
Coração
Precisa
Estar
Ocupado
Mesmo
Que o amor
De momento
Não valha
À pena
Coração
Vazio
A mente não pensa
Atrofia
Coração
Precisa
Bater
Sempre
Devagar
Vá reocupando
O coração
Coração vazio
Faz a alma padecer
Coração
Não nasceu pra ficar sozinho