30 de mar. de 2014

TÃO POUCO

tão pouco
que sei
e muito e que sinto
às vezes
e quantas
vezes perdido
nem mundo
de desamores
e desencantos
tão pouco
o que quero
e nem mais espero
todos
estão confusos
correndo
apressados
sem saber
para onde vão
tão pouco
o que sabe
e sentem demais
o que também
não sabem
e assim
todas as vidas
se desenham
nas folhas brancas
de brandas
do destino
tão pouco
quase nada

29 de mar. de 2014

CRIO

crio
meus desertos
minha solidão
crio
minhas chuvas
minhas tempestades
vivo
no meu labirinto
nas minhas ilhas
longe
daqueles que tentam
me ver
e não conseguem
daqueles
que tentam
me entender
e me perdem
daqueles
que querem
ser
partes de tudo
crio
histórias
que adoçam
temporais
entre
uma xícara
de café  e um cigarro
entre uma noite
de amor
e um dia
de transtorno
crio
saídas
que não levam a lugar algum
crio
minhas asas
e algo que me faça voar
dentro da minha gaiola
dentro do meu mundo.

SEMPRE

querem sempre
me prender
me encarcerar
querem sempre
vigiar meus passos
tomar conta
dos meus pensamentos
e guiar meu caminho
querem sempre
mais e mais
de mim e de tudo
o que há mim
as verdades
e as histórias
que conto
nas horas
antes de dormir
querem sempre
minha alma
aprisionada
algemada
amarrada
querem sempre
o amor que tenho
e que é meu
querem
meus olhos
meus dedos
meu riso escondido
como um prêmio
como um jogo
de vencedores
cruéis
e mais insanos
que eu
querem tudo
sempre
e me deixam sempre
jogado
no chão do meu mundo
sujo
infeliz
sozinho
cheio de feridas
que ninguém quer cuidar.

NADA DE MIM

nada de mim
nada do que fui
nada do que senti
talvez
algumas lembranças
nas horas vagas
um desprezo
gostoso
desgosto
nada de mim
do amor
que senti
do bem querer
sem nada querer
do tempo
de todas as horas
talvez
vertigens
talvez nada
nada de mim
dias passados
vidas
apenas
teus absurdos
tuas mentiras
e teus olhos mortos
o rio
ainda corre
em busca
do mar
para se perder
e nunca mais
te achar
nada de mim
nada do que fui
cinzas


FEL

queria crer
que era mel
era
fel que escorria
da tua boca
palavras que ainda
ecoam
pelos ventos
que não sopram mais nenhuma
angústia
quis crer
tu eras
a luz
eras
a escuridão
aflita e
com sede
maldosa
sorrateira
libidinosa
era serpente
que se movia
entre as folhas
do meu jardim
quis crer
que tudo
era verdade
e mentiras
escorriam
pelos olhos
cheio de lágrimas
sem gosto
era absurdamente
escancarada
e fétida
quis crer
no que não via
mulher
que não existia
cobra
serpente
era tudo
menos gente



DECADÊNCIA

amor
de poucos
ouro
do tolos
rua sem saída
monstro
na escuridão
decandência
insanidade que não passa
fúria contida
corpo frio
abismo
tropeço
fadiga
farpa
ilusão de um coração
cheio
de amargura
ficção
história mal contada
arrepio
frio na espinha
amor
pouco
poço seco
deserto
desperdício
amor
corrompido
miséria
alma vagando
no inferno
sem culpa
amor
de poucos
ouro dos tolos
tolo
bobo
eu


O QUE SOU

o que sou
sou um pouco
do vento
um pouco
da ventania
um pouco
da calmaria
sou insônia
sou um copo
de cachaça
sou raso
prato fundo
sou colher
garfo
faca
e sobremesa
o que sou
ainda
é o que fui
inconstante
desafio
frio
e morno
sou a chuva
que cai
na madrugada
que ninguém vê
respingos
na janela
inútil
imperceptível
o que sou
sou um pouco
o muito
cisco
no vento
ventania
na noite fria
lento
cheio de mim
sou o que sou
nada

AGORA

estou curado
de novo
amado
novamente amando
estou
liberto
para sempre
marcado
coração
calejado
tatuado
seco
estou bem
renovado
renascido
descrente ainda
em quase tudo
e vivo
cheio de vontades
e verdades
intaladas
na garganta
foi um câncer
que corroeu
minha alma
estou bem
de novo na estrada
na velha estrada
da vida
vivendo
dos velhos
sonhos que não morreram
buscando
de novo
novos sorrisos
arrancando
do jardim
a raiz
do mal que tentou
roubar
de mim
o que sou

FOI VERTIGEM

foi
foi vertigem
foi desatino
armadilha
do destino
foi traição
dor
humilhação
vale de lágrimas
foi
tudo
e não foi nada
não foi amor
nem paixão
foi caso pensado
mal
mascarado
mulher
de escarros
foi
viagem
miragem
o pior
que há
mal que marca
indescente
incandescente
amor
dos tolos
amor
de quem nunca amou
de quem nunca
nunca nada
bocas secas
cuspidas
mulher
feiticeira
mal
disfarçado
foi vertigem
viagem
passado

DEPOIS

depois
desta madrugada
infinita
dessas dores
que não morrem
depois
dos sonhos
e de todos os pesadelos
há de surgir
um novo dia
ou não
depois
desta tormenta
de um mar
de uma onda só
talvez
haja
novos ventos
novas rochas
onde eu possa me atirar
ou não
depois
que o sangue
secar
e o cheiro
insuportável
de um desamor
tão pequeno
apodrecer
sob o sol
tudo
findará
restará apenas
os ventos
é o cheiro
de mais nada