24 de out. de 2014

EM FRENTE

tenho que seguir
para frente
não importa como
se inteiro
ou despedaçado
tenho que fingir
sorrir
engolir
desamores
inverdades
pesadelos
tenho que ir
carregando
meu fardo
de ser como sou
não mais
como fui
nem sei mais
carrego
agora
apenas meu hoje
sem mais lágrimas
bambo
nessa minha corda
bamba
vivendo apenas
e querendo agora
não mais voar
quero ficar onde estou
onde me sinto bem
onde sou eu
e mais ninguém

PODE PARECER

eu sei
pode parecer
que tudo mudou
que tudo não é mais
como sempre foi
mas é
ainda sinto
o mesmo velho amor
de sempre
agora
não tenho mais
nenhuma ilusão
já vivi
amores
demais
eu sei
pode parecer
que tudo
está diferente
que não somos mais
os mesmos
e somos
inteiros
colados
como sempre
vivendo
nossa vida tão nossa
e já não é mais
amor
deixou de ser
é além
além do que se vê
além do que se entende
eu sei
nossa amanhã
é sermos
os mesmos de sempre
mãos dadas
num só coração

COMO ESTOU

estou indo
indo
passo a passo
vivendo
minha vida
dia a dia
sem olhar
para meu passado
sem querer
futuro
vivendo
minha história
meu presente
estou indo
bem
mancando
sagrando
crescendo
ascendente
estou bem
amado
amando
tentando sorrir
sem julgamentos
sem julgar
sem rancores
sem comédia
vivendo a vida
crua
sem sonhos
sem planos
estou bem
indo
para meu fim
querendo
para sempre
ser como fui
livre
liberto
sem passado
sem memória

ENVELHECENDO

cheio de dores
cheio de marcas
coração endurecido
alma cansada
tantos caminhos
tantas idas
perdidas
o corpo reclama
a alma chora
cheio de dores
cheio de cicatrizes
voz agora calada
poesia
agora muda
envelhecendo
sentado
ainda na beira
da estrada
da minha vida
tentando voltar
de um caminho sem volta
perdido
sem sorrisos
e vitórias
e lágrimas
e derrotas
cheio de dores
cheio de mágoas
despedaçado
e vivendo
a vida que me resta

MEU EU

meu eu
meu verdadeiro eu
morreu
morreu viciado
por invenções
de amores
tão sem sentido
meu eu
foi assassino
numa esquina
de uma vida qualquer
atropelado
pela ânsia
de viver
uma vida
de tantas ilusões
meu eu
ficou
ali jogado
coberto
estático
gelado
quebrado
sem amor
sem coração
sem alma
piedade
meu eu
morreu
foi atirado
no abismo
de todos os absurdos
que só o amor
consegue
fazer
dar
morrer
matar
 

SOMBRAS

sombra
minha poesia
agora é eco
sem voz
sombra
numa noite
sem lua
minha poesia
agora
é grito
entalado na garganta seca
é papel
em branco
é sujeira
que vicia
sombra
minha poesia
é sem sentido
é sem amor
sem paixão
é algo apenas
em mim
calada
solitária
por num caminho
diferente do meu
minha poesia
agora
é soluço
é saudade
lembrança
do que fui
 

7 de set. de 2014

MINHAS GLÓRIAS

quantas
vezes
perdi
para poder
ganhar
quantas
vezes
chorei
uma dor
que não era minha
pra poder
depois rir
uma alegria
quantas
vezes fiz
coisas que não queria
fazer
para agradar
quem me feria
para depois
devolver
todas as moedas
sem valor
quantas
vezes
andei por ai
com os pés no chão
quantas
vezes bebi
o mais amargo fel
quantos
pães
que o diabo amassou
e eu comi
pra depois
levantar
as glórias
que ninguém pode roubar
de mim

AMORES INVENTADOS

gosto
de mentir
sentimentos
gosto
de inventar
amores
que me fazem
um balão cheio
de ar
assim
posso voar
por ai
até que todo gás
se perca
e depois
eu possa
aterrisar
tranquilo
na realidade
que me sustenta
gosto
de mentir
para mim
de inventar
paixões
que possam aquecer
meus instantes
depois
posso voltar
a ser
barco à vela
sem vento
neste imenso
oceano de mim
e de tantos amores
descabidos
e inventados
 

PARA TRÁS


bom
andar
sem que ninguém
quais minhas dores
e o que eu carrego
em minhas costas
bom
andar
a favor
de um vento
que é contra
deixo
que ele me carregue
deixo
que ele me leve
deixo
que ele
me sinta
bom
andar
entre tantas pessoas
que não sabem nada
de mim
bom
ser mais um entre tantos
tantas dores
misturadas
e dissolvidas
em uma única dor
bom
andar
e deixar
tudo para trás

ÀS VEZES

às vezes
é preciso mesmo calar
ficar em silêncio
abduzido pelo tempo
às vezes
é preciso fingir
que nada aconteceu
e deixar
pra lá
tudo o que se viveu
a vida
é isso
sentidos
e sentimentos
valores
e lições
que se aprende
vivendo
às vezes
uma realidade
que não é a sua
às vezes
tendo um medo
que não é seu
muitas vezes
correndo riscos
desnecessários
mentir
às vezes
quantos mares
e quantas mares
quantos ventos
e quantos pensamentos
perdidos