14 de mai. de 2018

DE VERDADE

pode
ser
que de verdade
eu nunca
saiba
quem és tu
que me importa
quais
tuas mentiras
ou tuas verdades
teus amores
ou teu amor
não há pecado em amar
desde que verdadeiro
desde que sincero
desde que intenso
então
não me julgue
por te querer
e se te quero
a culpa é tua
foste tu
que alimentaste
meu querer
foste tu
que alimentaste
o fogo que me queima
foste tu
que me induziste
ao erro
agora queimo no inferno
de um amor
que é só meu
enquanto debochas
do que sinto
de verdade
que importa
o que sentes
se mentes
ou se foges
de ti
estarei aqui
até que o amor morra
em mim
depois disso
pode despir tua alma inteira
já irei mais
te querer
e de verdade
já não mais te quero

DEIXE O MUNDO LÁ FORA


feche a porta
as cortinas
não quero ver o sol
nem a quero saber a cor
do dia

deite na cama
abraca-me
e deixa
ficar em silêncio

deixa
eu esquecer
o mundo lá fora
minhas dores
meus sintomas
de tudo

feche a porta
arraste os móveis
tire as cadeiras do lugar
jogue fora os travesseiros
bagunce as gavetas
minhas prateleiras
jogue no chão meus livros

deixe minha alma
quieta
ando cansado de tudo
apenas fique na cama sem lençois
no meu silêncio imundo
neste meu agora de instantes

feche a porta
e as cortinas
e deixa o vento lá fora

LIBERTE-SE

liberte-se
quebre
tuas algemas
os elos da tua corrente

liberte-se
da velha
forma de amar
o velho amor de sempre

mova-se
mude o caminho
o jeito de se vestir
mude o corte de cabelo
se for possível
mude a cor

liberte-se
dos labirintos
da fome de nada
da sede de tudo

liberte-se
dos braços vazios
das bocas ocas
dos ecos

abrace o vento
dispa-se do medo
de ser ridículo

seja tu
a tua verdade
a tua estrada
o teu caminho

deixe pegadas
deixe saudades
liberte-se do teu próprio caos

QUE VALHA À PENA


que valha à pena
teu sorriso
teus afetos
tua fé em dias melhores

que valha à pena
teu amor
teu jeito de amar
que sentir

teu jogo
de insinuações
teus melindres
e tuas poesias rabiscadas
nas paredes do meu quarto

que valha à pena
passear
pelo teu mundo
por tuas convicções

que teus abismos
sejam imensos
e teus mares profundos
e tuas asas

que valha à pena
teu riso frouxo
tuas mãos
tuas cicatrizes

e teu amor
sem amor algum

CONEXÕES

não fale nada
deixe-me
ler
teus olhos
teu silêncio
as linhas da tua mão

deixa eu olhar
teu jeito
de andar
teu modo gostoso
de respirar

quero
deitar
do teu lado
pegar sua mão
fechar meus olhos
e ter você
ali

conectados

quero
no vento teu perfume
na minha pele teu cheiro
deixe-me inteiro
saciado

ler
tuas entrelinhas
teu jeito de sentir
ver as estrelas
do céu da tua boca

deixa-me perdido
em tudo o que há em você

VOU AMAR

vou amar
teu jeito
sem jeito
vou amar
tuas falhas
e teus pecados
e tuas agressões
vou amar
tuas noites
teu hálito de vinho
e os dedos
fedendo cigarro
vou amar
tua intimidade
teus beijos
vou amar
o jeito que faz café
que queima o arroz
vou amar
teu riso
sem graça
por não entender
as próprias piadas
vou amar
a água sobre teu corpo
a espuma
os pés descalços
teus indecisões
e o teu medo de escuro
vou amar
teu jeito moleca
teu jeito criança
teu jeito de comer espaguete
vou amar
tuas nuances
tuas unhas descascando
tua cara de azia
e o teu jeito
inteiro de ser você

FODAM-SE

fodam-se os normais
os que julgam
os que apontam
os erros
e os defeitos dos outros

fodam-se
os engoles
seus vômitos
e suas feridas

fodam-se
os que assistem televisão
e não lêem poesia

fodam-se
os que seguem rotas
rótulos
setas
placas

fodam-se
aqueles que não erram
aqueles que só esperam
aqueles que metem o amor que sentem
e o que não sentem nada

fodam-se
os malandros
os algozes
e os que não lêem as bulas
os manuais

fodam-se os manuais

MAR

de repente
quero
ser teu mar

de repente
já não sei mais
onde estou
e onde quero estar

nem perdido
nem achado
apenas

de repente
quero tuas ondas
minha loucura
e ir
navegar
remar
sem porto
nem dique

quero
deixar de sentir
para sentir tudo de novo

quero o teu mar
amar
e me deixar levar
até a praia

quero que o sol me seque
e que o mar
volte a me molhar

instantes
quero chuva
arco-íris
teus olhos
boca

respiração
quero tudo
ainda que depois
tudo seja mais nada

FICAR

quero
ficar
onde não exista nada
nem olhos
nem bocas
nem mentiras
nem verdades

quero ficar
em ruas vazias
quero jardim
sem flores

quero silêncio
e bocas mortas
quero becos
e rua sem saída

quero janelas fechadas
quero dias de chuva
quero mais dias de inverno
quero queimar no inferno

quero cada vez menos
essa droga que é o amor
quero a dor
o desajuste
e ir
e ficar

quero ficar
sem obrigações
sem ter que dar satisfações
quero noites sem fim
e dormir
até que meus sonhos findem
minha realidade

E AGORA DRUMMOND

e agora Drummond
a poesia calou
o poeta morreu
a violência aumentou

a crianças cresceram
as praças estão vazias
e o amor
já não é mais o mesmo

e agora Drummond
só se assiste novela
não se olha mais pela janela
nem mais se olha a lua

o sol esfriou
a comida azedou
e o casal que era eterno
separou-se

a pedra no caminho
ainda existe
mudou apenas de nome
agora é crack

e agora Drummond
a fila aumentou
o suicídio também
a maconha tá liberada
tem filho matando os pais
e pais abusando dos filhos

todo mundo sobrevivendo
as flores morrendo
e a água secando

agora Drummond
nada é mais certo
e cada vez mais
o amanhã
é incerto

é agora?