27 de jul. de 2008

SERENIDADE

estrela perdida
em terras
sem dono
estrela apagada
na imensidão
em terras
sem lei
ninguém mais é
ninguém mais tem
serenidade
não cabe mais
a ninguém
nesses dias de tormenta
serenidade
sem nexo
em dias
que se vive apenas
correria
que não se conhece
mais a paz
estrela apagada
há tempos
a serenidade
que os homens
não mais conhecem
perdida
em terra sem dono

AVATAR


por vezes
me transformo
deixo
de ser quem sou
para ser
o que quero ser
por vezes
abandono
minhas crenças
abandono
minhas orações
feito
camaleão
feito lagarta
por vezes
largo
minha face
marcada pelo tempo
para sorrir
fingindo
ser outro alguém
para ser eu mesmo
por vezes
me observo
e deixo que minhas
transformações
falem por mim

BOA VIDA


quem goste
de não fazer nada
quem não faça nada
a vida toda
quem passe
sem passar
quem passe
por passar
quem viva
uma boa vida
sem preocupação
sem ensinar e
sem aprender
quem viva
de sombra e água fresca
e não deixa nada
e não soma
e nem divide
apenas passe
por passar
e vive para sempre
uma boa vida

REPULSA


onde estão
as velhas histórias
que meus avós
contavam
não existem mais
existem apenas
a repulsa
por este mundo
de hoje
mundo
sem história
mundo
sem família
mundo sem dono
mundo abandonado
onde estão
as histórias
que os livros
também contavam
não existem mais
apenas
há repulsa
pelas histórias
contadas
pelos jornais
onde estão os livros
que já foram
escritos

COMPRAZER

escrever
comprazer
escrever
para desnudar
minha alma
escrever
comprazer
para trazer
quem lê
para mim
para que não me sinta
mais sozinho
a solidão
maltrata
e também ensina
escrever
comprazer
e deixar que essa paixão
fale por mim
comprazer
unir os laços
de quem lê
e de quem escreve
com um amor
que une
e dá prazer
comprazer

LAPIDAR


gosto
de lapidar
corações
gosto
de lapidar
sentimentos
ver aflorar
novas emoções
olhar
as reações
despertar
gosto de lapidar
diamantes brutos
jóias raras
escondidas
na superfície
que ninguém vê
gosto de mexer
de fazer pensar
de refazer
de lapidar
de ver o brilho
ofuscar o brilho do sol
gosto de descobrir
o que existe por trás
de quem se esconde
gosto de lapidar
corações
embrutecidos

DESAFORO


já não sei mais
o que é ou não
correto
não sei
se é normal
sua intolerância
seu desaforo
já não sei mais
nem o que virá
nada surpreende
nada assusta
sua indolência
sou obrigado
a dividir
a aceitar
sem reclamar
não sei mais
se posso
não sei mais
se devo
sua intolerância
seu desaforo
não sei mais
o que é normal
anormal
ou o que é loucura
está tudo
absolutamente
fora do lugar

26 de jul. de 2008

TIMIDAMENTE

nem o sol
nasce como antes
nascia
aprendeu
a despontar
porque precisa
da força natural
não nasce
timidamente
nas encostas
nem recebe mais
as bençãos
de antes
nem os aplausos
nem o sol
se põe
sob os olhares
não mais apaixonados
nem se põe
como antes
timidamente
encantado com o amor
que existia
e não existe mais
nem o sol
nasce
e nem o sol se põe
como antes
sob suspiros e abraços

SUBMISSÃO


não é mais
nem pode mais
ser assim
amor submisso
que não reclama
que não chama
x
não pode haver
submissão
de quem ama
não cabe
nem pode mais
haver submissão no amor
que não prende
x
não é mais
possível
calar-se diante
nem deixar forte
amor submisso
x
não cabe mais
tamanha submissão
nos dias
de ontem
no amor de hoje

SEMBLANTES


olhares
por aí perdidos
semblantes
atordoados
não se sabe
o que sentem
o que pensam
semblantes paralisados
perdidos
no infinito
perdidos
no espaço
entre a razão
e o sonho
olhares no horizonte
de um céu
que não é mais azul
que não é mais inspirador
e os semblantes
que olham atônitos
para o hoje
e buscam a felicidade
do ontem
tantos olhares
e seus semblantes