1 de jan. de 2010

FICOU*

ficou
para trás
tudo o que
foi vivido
.
ficou
no passado
tudo o que foi
falado
e sentido
e sofrido
.
ficaram
nas horas
que se foram
tudo
o pior
e o melhor
as conquistas
e derrotas
.
ficaram
no chão
os cacos do
meu ontem
e todas as histórias
que não cheguei a escrever
.
ficou
para o amanhã
o que deixei
ainda plantado
nos vasos coloridos
da vida

UM NOVO HOJE*

não sou mais
o mesmo
o mesmo
que era ontem
não sou mais
o mesmo
faz tempo
sempre
busco
um novo hoje
um novo amanhecer
um novo motivo
que me faça viver
não sou mais o mesmo
o mesmo
que fui
a vida toda
como muda o mundo
eu também mudo
me transformo
me modifico
pioro
melhoro
busco um novo eu
um novo hoje
e o que ficou
ficou para trás de mim
no silêncio
do meu ontem
não sou mais
quem fui
não sou mais o mesmo

30 de dez. de 2009

CÉTICO*

não queria
que eu tivesse
me transformado
nisso
logo eu que sou poeta
logo eu que vivo
e acredito na força
e no poder das palavras
me vejo agora
morto
cético
sem crer em mais nada
sem ver mais a beleza
que antes eu via em tudo
estou morto
cético
coração gelado
não vejo mais a mesma
graça que eu via
as pessoas agitadas
correndo
animadas
esperando o ano novo
o que há de novo
no ano que vem
os dias são todos sequências
de todos os dias
vamos envelhecendo
perdendo
tempo
e o tempo não para
passa
e nos deixa
cada vez mais alienados
não queria ser assim
não queria me sentir
morto
queria mais vida
mais alegria
queria voltar a sorrir
queria tantas coisas que perdi
a alegria
logo eu
que sou poeta
logo eu que acredito no amor
logo eu que preciso de amor
me sinto morto
cético

ANARQUISTA DE MIM*

eu sou sim
severo demais
comigo
severo demais
com tudo
não é tudo
que eu aceito
não é tudo que eu permito
não é com tudo
que eu concordo
eu sou sim
chato
pedante
mas não sou injusto
nunca fui
eu sou sim
crítico demais
organizado demais
e definitivamente
um homem sem paciência
mas sei ouvir
só não sei ficar quieto
só não sei me calar
eu sou sim
alguém que decidiu
simplesmente não aceitar
o que foi imposto
alguém sem regras
sem leis
fechado no meu próprio eu
para não estragar
o bom humor de ninguém
eu sou sim
agora
um poeta apaixonado
pela essência humana
apaixonado sempre pela
beleza feminina
que ainda é calmante
em minha vida...
eu sou sim
anarquista de mim

AS MULHERES QUE AMEI*

as mulheres
que amei
eu conto nos dedos
de uma mão
não foram muitas
sabendo
hoje
o que é o amor
algumas
eu gostei demais
outras nem tanto
umas gostaram
de mim
outras nem tanto
mas amar
de verdade
amar aquele sentimento
de pura necessidade
esse amor
que machuca na ausência
esse amor
eu dei para poucas
conto nos dedos
de uma mão
as mulheres que amei
foram as que me enlouqueceram
aquelas que me perturbaram
a alma
aquelas que incendiaram minha vida
aquelas que não esqueço o nome
as mulheres que amei
são as mulheres
que deram para mim
o maior prazer
sem querer
sem cobrar nada em troca
as mulheres que amei
hoje eu sei
conto nos dedos
de uma mão

EU NUNCA*

eu nunca tive amigos
amigos
de verdade
amigos
de muitos anos
amigos
de momentos
sempre que lembro
de mim
lembro-me sozinho
indo por ali
e por aqui
sempre
sozinho
não me lembro
de viagens
e de momentos
não me lembro
das bagunças
mas lembro de pessoas
que passaram
pela minha vida e deixaram
um pouco de si
para mim
eu me lembro bem
de cada rosto
de verdade
eram apenas pessoas
amigos
de verdade
aquele que chega
sem hora marcada
aquele que vem sempre
carregado de sorriso
aquele que não se importa com nada
aquele que vem
e carrega nos braços
amigos assim
eu nunca tive
e também nunca fui

TODOS OS DIAS*

todos os dias
quero acordar
cedo
tenho medo
de morrer dormindo
.
todos os dias
abro bem cedo
a minha janela
rego as plantas
da varanda e escuto
os pássaros cantar
(eu nunca escutei os pássaros)
.
todos os dias
beijo minha vida
abraço
afago
carinho
tenho medo agora
de morrer
agora entendi
o que é viver
.
todos os dias
beijo meus filhos
faço um dengo
um xodó
em minha mulher
e não perco mais
o tempo
lendo as infâmias dos jornais
prefiro assistir
desenho animado
.
todos os dias
caminho pelas calçadas
procurando meus amigos
de infância
todos como eu cresceram
e hoje
como eu
todos os dias
têem medo da morte

NÃO MAIS*

não mais
não me iludo mais
com certas coisas
para mim agora
tão superficiais
.
não mais
não vejo mais
a mesma beleza
que eu via
não tenho mais
a mesma fé que eu tinha
.
estou mais cético
meu coração
mais carrancudo
meu olhar
muito mais sisudo
não mais
não vejo mais
tanta graça
nesse palhaço
vestido de vida
.
as máscaras caíram
o tempo
mudou meu jeito
de ser
de ver
de sentir
não mais
não tenho mais pressa
tenho medo
a vida acaba daqui para frente
mais veloz
.
não mais
não amo mais
como amei um dia
o amor não é mais necessidade
é obrigação

CALADOS*

o engraçado
é ver o tempo passando
e modificando tudo
aquela fúria
da juventude acalma
aquela fome
aquela euforia
de viver vai aos poucos
se apagando
se acalmando
a necessidade de falar
passa
as palavras são mais centradas
devagar
vamos ficamos mais calados
quantos velhos
há por aí
sentados em suas cadeiras
olhando para a vida
pensando em todas as besteiras
ditas
faladas
quantas besteiras esquecidas
engraçado
vendo o tempo
curvando nossas costas
e o silêncio
fechando nossa boca
e como passamos a maior parte
do tempo calados

DEPOIS DE AMANHÃ*

depois de amanhã
não serei mais o mesmo
não contarei
mais os minutos
não terei mais
pressa alguma
depois de amanhã
não farei mais aniversário
e nem mais
contarei os dias
para o final do ano
contarei sim
os dias
para o final da vida
depois de amanhã
não terei mais sede
de paixão
saberei com certeza
que só é feliz
quem ama mais de uma vez
não serei o mesmo
depois de amanhã
meu rosto
receberá os sinais
do tempo
o corpo enfim mostrará
os sintomas da minha pressa
depois de amanhã
muita coisa
deixará de ter importância
cada dia que vivi
cada coisa que aprendi
estarão ainda mais acentuados
depois de amanhã
começarei a mostrar
que fui um bom aluno
não serei mais
o mesmo
depois de amanhã
não haverá mais Natal
apenas Anos Velhos
não serei o mesmo
e nada será igual